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1.6.10

Balada do amor através das idades


Eu te gosto, você me gosta
desde tempos imemoriais.
Eu era grego, você troiana,
troiana mas não Helena.
Sai do cavalo de pau
para matar seu irmão.
Matei, brigamos, morremos.

Virei soldado romano,
perseguidor de cristãos.
Na porta da catacumba
encontrei-te novamente.
Mas quando vi você nua
caida na areia do circo
e o leão que vinha vindo,
dei um pulo desesperado
e o leão comeu nós dois.

Depois fui pirata mouro,
flagelo da Tripolitânia.
Toquei fogo na fragata
onde você se escondia
da fúria de meu bergantim.

Mas quando ia te pegar
e te fazer minha escrava,
você fez o sinal-da-cruz
e rasgou o peito a punhal...
Me suicidei também.

Depois (tempos mais amenos)
fui cortesão de Versailles,
espirituoso e devasso.
Você cismou de ser freira...
Pulei muro de convento
mas complicações políticas
nos levaram à guilhotina.

Hoje sou moço moderno,
remo, pulo, danço, boxo,
tenho dinheiro no banco.
Você é uma loura notável,
boxa, dança, pula. rema.
Seu pai é que não faz gosto.

Mas depois de mil peripécias,
eu, herói da paramount,
te abraço, beijo e casamos.

Carlos Drummond de Andrade



27.5.10

Infância


Meu pai montava a cavalo, ia para o campo
MInha mãe ficava sentada cosendo
Meu irmão pequeno dormia
Eu sozinho menino entre maqueiras
lia a história de Robinson Crusoé,
comprida história que não acaba mais.

No mei-dia branco de luz uma voz que aprendeu
a ninar nos longes da senzala - e nunca esqueceu
chamava para o café.
Café preto que nem a preta velha
café gostoso
café bom.

Minhamãe ficava sentada cosendo
olhando para mim:
- Psiu...Não acorde o menino.
Para o berço onde pousou um mosquito.
E dava um suspiro...que fundo!

Lá longe meu pai campeava
no mato sem fim da fazenda.

E eu não sabia que minha história
era mais bonita que a de Robinson Crusoé.

 Carlos Drummond de Andrade